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Museu Dr. Mário Bento

No momento da concretização de uma obra não podemos esquecer o que lhe está na origem, o seu percurso, os seus obreiros. Como de um rio que finalmente desagua no mar fecundo temos de recuar à nascente para que dele tenhamos a consciência plena, também do Museu Dr. Mário Bento devemos procurar a sua razão primordial nos meandros de um espírito jovem, desperto para o mundo que o rodeia e ávido de respostas perante interrogações suscitadas pela observação atenta do meio. Daí à prática da arqueologia foi um passo. As mesmas motivações e preocupações - desejo de desvendar e compreender o passado, preservartestemunhos e partilhar o resultado dos seus estudos - estariam na base do sonho que o Dr. Mário Bento acalentou até ao fim dos seus dias: ver o seu espólio acolhido a um museu, de modo a poder ser por todos desfrutado. Um museu na sua terra, este que aqui se apresenta, fruto, em primeiro lugar, de quem um dia ousou sonhar, mas também da boa vontade, trabalho e dedicação de quantos contribuíram para que o sonho se tornasse realidade. A melhor homenagem que lhes podemos prestar é assegurar, para o futuro, o desempenho das funções museológicas desta casa. Quanto ao Dr. Mário Bento, temos a certeza de que nada lhe daria mais satisfação do que ver cumprido o seu grande desígnio. Tanto como a gratidão que lhe devemos, congratulamo-nos por sermos parte de uma obra que enaltece o seu nome e enriquece a Meimoa e o concelho de Penamacor.

 

Biografia Dr. Mário Bento
Mário Pires Bento nasceu a 22 de Outubro de 1909 na cidade da Covilhã. Cedo regressa à terra natal dos seus pais, a Meimoa, onde passa os primeiros tempos de meninice.
A sua formação escolar começa na Meimoa, prosseguirá na Guarda e será concluída em Lisboa.
Em 1932 ingressa no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, concluindo a licenciatura em Ciências Económicas e Financeiras em 1936.
Inicia a sua actividade profissional como professor do Ensino Técnico Particular. Em 1940 inicia a carreira administrativa na Câmara Municipal de Penamacor, mais tarde continuada em Almeida e em Oliveira do Hospital. E em 1955 é admitido na Câmara Municipal de Almada onde permanecerá até à sua aposentação como Director-Delegado dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento.
Dedicou aos assuntos culturais uma parte significativa da sua vida pessoal. As viagens e o coleccionismo constituíram as suas actividades predilectas. Na Meimoa, e no seu território, recolheu um significativo número de objectos etnográficos e arqueológicos - alguns de inestimável valor histórico e cultural. O interesse pela arqueologia será contínuo ao longo da sua vida e sempre renovado. No final dos anos 50 frequenta na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa algumas disciplinas desta área. E no início da década seguinte realiza algumas sondagens arqueológicas em sítios arqueológicos romanos da freguesia da Meimoa. A partir de então dá notícia destes trabalhos e de outras descobertas em várias publicações, por vezes também em colaboração com outros investigadores. Ainda que a maior parte dos seus trabalhos de recolha e estudo se tenham centrado sobre a Meimoa, dedicou também atenção a outros locais como, por exemplo, a Penamacor ou a Almada, e a outros temas, de que se destacam a museologia, a arte e o turismo. Faleceu a 30 de Outubro de 2000, em Almada, cidade que considerava como a sua segunda terra natal depois da Meimoa.


Lagar
O Museu Dr. Mário Pires Bento ocupa o antigo lagar da família Cameira, após adaptação e ampliação do edifício para este novo fim pela Câmara Municipal de Penamacor. O museu guarda, e exibe selectivamente, a colecção arqueológica e etnográfica doada pelo patrono do museu, e mostra o equipamento e mobiliário industriais do lagar. A este acervo nuclear juntam-se outras peças que, entretanto, foram oferecidas por outros dadores.
O primeiro piso recebe a portaria do museu e uma zona de repouso com um pequeno bar, assim como os sanitários. Ainda neste piso, encontra-se um depósito de materiais arqueológicos. Na restante área encontra-se o lagar propriamente dito. Este complexo industrial foi construído no início da década de 40 do século XX, tendo sofrido várias reformas até à sua desactivação na década de 80.
Do lagar conservam-se bem todos os seus espaços funcionais e respectivos equipamentos mecânicos. Está dividido em três sectores. O primeiro é constituído pela zona das tulhas para armazenagem e pesagem da azeitona, hoje apenas marcadas no pavimento, a zona da lavagem e a zona da moagem. Noutra sala, em pavimento sobrele-vado, os geradores e motores compartilham o espaço com a termo-batedeira onde a azeitona triturada era bem envolvida e aquecida e transportada em vagonetes, circulando em carris, para as prensas hidráulicas. Por fim, na zona mais baixa desta sala as prensas espremiam a massa, obtendo uma mistura de óleo e de águas vegetativas. Esta era recolhida em tanques onde por gravidade, ou conduzidas a uma centrifugadora, o azeite era separado dos líquidos.
O segundo piso é constituído por uma área de trabalho e uma pequena reserva museológica. A restante área constitui uma ampla zona expositiva, agora ocupada com a exposição inaugural do museu: A colecção de Mário Pires Bento. Do gosto de coleccionar à preservação do património cultural. Mostra selectiva e encenada. Esta está organizada em três núcleos: Exposições 1 e 2 - Etnografia: o pão e o vinho; Exposição 3 - Arqueologia: a presença romana no território da freguesia da Meimoa.

 

O Pão
O pão é um dos alimentos essenciais da dieta alimentar local até aos anos sessenta, data em que o mundo rural cristalizado em práticas e sistemas ancestrais entra em ruptura. Perdura, no entanto, a sua importância alimentar e simbólica.
O fabrico do pão é a última operação de um longo e, por vezes, árduo ciclo de trabalho.
Num primeiro bloco expositivo apresenta-se uma mostra curta dos objectos e alfaias utilizados no cultivo, ceifa e debulha dos cereais e na obtenção da farinha. Tratam-se de peças anteriores à mecanização da agricultura e da moagem, ainda que algumas possam ser contemporâneas da utilização destes novos processos. Serão peças datáveis, num limite máximo, dos inícios dos anos 70. Algumas exibem marcas de uso intensivo e reparações sucessivas; são hoje instrumentos em desuso e tecnologias extintas.
A segunda parte da exposição centra-se no fabrico do pão. Se os objectos têm alguma antiguidade, a mesma que as alfaias anteriores, o modo de fabrico - a mistura dos ingredientes (a farinha, o sal, a água e o fermento), os tempos de espera para fintar a massa e, por fim, a cozedura em forno de lenha, aqui não representada - continuam inalteráveis na actualidade.

 

O Vinho
Esta bebida, carregada de sentidos simbólicos, acompanha a vida das populações rurais tradicionais. Está presente nas celebrações rituais, nos convívios sociais e familiares e no duro quotidiano da vida no campo.
Mostram-se aqui os utensílios e equipamentos que serviam a vindima, a vinificação e o fabrico da aguardente. Este núcleo tem a particularidade de não ser, na totalidade, o resultado de uma recolha de objectos etnográficos, mas antes mostrar o conjunto de utensílios e equipamentos que Mário Pires Bento tinha ao seu serviço para produzir o seu próprio vinho. Não sendo as peças particularmente antigas, constituem um bom conjunto, coerente e relativamente completo, que documenta bem a actividade vinícola de uma casa agrícola de média dimensão da região. A vinha que possuía permitia uma produção regular e de alguma quantidade, utilizando os métodos tradicionais locais. Uma parte do vinho e da aguardente era vendida e outra era engarrafada, com rótulo próprio: Cerquita, o nome da propriedade onde estava a vinha.

 

Arqueologia
A área da freguesia da Meimoa conheceu no período romano um intenso povoamento. Esta ocupação que remonta aos finais do século I a. C. é testemunhada por abundantes materiais arqueológicos e ruínas de construções. O vicus mencionado na ara dedicada ao imperador Trajano seria o povoado mais importante deste território.
Talvez localizado na Canadinha, vasto sítio arqueológico a pouca distância da aldeia. Da arquitectura destes locais conhecemos muito pouco: as escavações realizadas por Mário Bento permitiram a descoberta de uma pequena parcela de uma habitação. As paredes são de alvenaria e uma das salas tinha o pavimento revestido com uma argamassa de cal e cerâmica moída. Porém, os achados avulsos revelam-nos outros aspectos das construções: o uso do granito para os elementos arquitectónicos mais elaborados como, por exemplo, colunas, pilares e capitéis. Estão presentes os ele-mentos de cobertura cerâmicos e os tijolos para fins diversos: pavimentos, arcos e alvenarias.
Os campos eram ocupados por explorações agro-pecuárias. As mais importantes eram as villae. A mais notável parece ter sido a do Cabeço do Lameirão. Existiam também outras mais pequenas, os casais ou granjas. É também provável que houvesse outros ainda mais pequenos, simples habitações ou pequenos abrigos de apoio às actividades agrícolas. Nestas explorações produziam-se certamente cereais, leguminosas, vinho e azeite, a par da pastorícia e da criação de animais domésticos. As talhas, sempre presentes nestes sítios, serviam para o armazenamento do azeite, do vinho e também dos cereais. Os moinhos denunciam o consumo dos cereais em farinha; encontram-se dois tipos: os moinhos manuais e os de tracção animal. Outras actividades eram praticadas, como a tecelagem ou a metalurgia.
A vida destas populações era tutelada por divindades clássicas - e divindades locais que, por agora, ainda desconhecemos - aqui representada por uma ara dedicada a Júpiter. Testemunhando os rituais da morte destas populações, sobreviveram alguns monumentos e objectos. As famílias mais abastadas faziam guardar os restos mortais dos seus elementos em jazigos, onde se colocava uma inscrição em memória dos falecidos. Eram também comuns as estelas, monumentos de tradição indígena, fincadas no chão à cabeceira dos enterramentos. Noutras ocasiões, com os enterramentos eram depositados alguns objectos de uso quotidiano como oferendas rituais, por exemplo, bilhas ou púcaros.

 

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